Quando fecho os olhos por um minuto, perco 60 segundos de luz

Fotografia significa, literalmente, escrever com a luz. A etimologia da palavra simplifica de uma maneira genial o exercício de um fotógrafo. Conheci e vi palestras de fotógrafos que são muito cerebrais e minuciosos com seus trabalhos, e vi também alguns que não se analisam em nada, a ponto de se justificarem com a frase “fiz porque quis”. O que todos os grandes têm em comum, e não se tem como duvidar disso, é o domínio da sua ‘linguagem’.

Quero usar aqui, como metáfora, os escritores de alta literatura. Há de se convir que é ridícula a ideia de que possa existir alguém que faça literatura que não tenha o domínio da língua. Isso é essencial. Mas outra coisa importante é achar, dentro dos parâmetros dos signos e significados da linguagem, uma identidade linguística que o diferencie dos demais escritores. Em uma análise semiótica, os meios da mensagem seriam tão fundamentais para a comunicação como a mensagem em si. Um Garcia Marquez pode ser identificado independente do assunto do texto, assim como seu texto é diferente de um Borges e de um Machado de Assis.

Não é mera coincidência que um dos maiores linguistas que já existiu também escreveu a melhor análise sobre a fotografia. Em sua Câmara Clara, Roland Barthes discute a fotografia usando métodos de estudo de signos. Em uma passagem, o autor destaca que toda a foto é contingente, e sem um contexto ela não significa nada, pois pode significar muitas coisas. Ora, se toda a foto é contingente, como então pode um fotógrafo criar um estilo característico?

Existem certos temas que são difíceis de irem além do seu clichê: bebês são fofos, mulheres lindas são atraentes, etc. Imagine uma foto de um cozinheiro, e logo vem a imagem de alguém de branco, vestindo um avental, dentro de uma cozinha. Essas ideias estão enraizadas no imaginário comum e sempre serão incorporadas na fotografia. Alias, é difícil escapar da beleza estética e a atração da imagem sublime da fotografia. O que os grandes fotógrafos fazem é desafiar essas ideias e noções.

Assim como escritores parecem desafiar a escrita como se houvesse uma constante dualidade entre um casamento perfeito e a luta pela palavra ideal (sugiro a leitura do conto de Machado de Assis “O Cônego ou a Metafísica do Estilo” para entender um pouco o processo de um escritor), os fotógrafos procuram uma identificação pelo entendimento da característica abrangente da fotografia.

Nesse contexto, a frase “Os limites da minha linguagem significam os limites de meu mundo” do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein sumariza uma angústia comum a quase todos os fotógrafos: ir além da tendência limitadora da fotografia. Afinal, nenhum fotógrafo tem a exclusividade da imagem.

Como, então, criar uma identidade? Um reconhecimento imediato que faça um expectador, quando vê uma imagem, dizer que ela pertence a esse ou aquele fotógrafo? Eu acho que esse não é somente o desafio de todo grande fotógrafo, mas sim na arte como um todo. E se houvesse uma fórmula mágica, não seria especial. Penso que isso ocorre através de muita emulação, angústia e tentativas. Mas, antes de mais nada, o conhecimento daquilo no qual se trabalha. Assim como ninguém nasce escrevendo, e imagino que Garcia Marquez errou muitas palavras até achar aquela ideal, um fotógrafo tem que ir à rua, ao estúdio, qualquer lugar, até que se encontre.

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