O jornalismo na era da pós-verdade

A pós-verdade chamou atenção e se tornou a palavra de 2016. Qual será o impacto que o jornalismo causa neste fenômeno?

A “pós-verdade” pode até parecer um termo que surgiu em um episódio de Black Mirror, mas foi a palavra do ano de 2016 segundo o Dicionário de Oxford. O Google registrou mais de 20,2 milhões de citações em inglês, 11 milhões em espanhol e 9 milhões em português. Apesar de o termo corresponder perfeitamente com o cenário atual, ele foi utilizado pela primeira vez pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich, em 1992.

Segundo a definição britânica, “pós-verdade” é um adjetivo que evidencia momentos nos quais os fatos têm menos influência na opinião pública do que crenças pessoais. Em outras palavras, há uma indiferença aos fatos, uma vez que eles não afetam os julgamentos e preferências já consolidadas.

Você pode até acreditar que o jornalismo não tem relação com a pós-verdade, e alegar que esse é um comportamento característico do imediatismo contemporâneo causado pela tecnologia. Contudo, infelizmente ele tem sua parcela de culpa. Nessa tentativa infeliz de competir com as redes sociais, a imprensa passou a priorizar em ser o primeiro a passar a notícia e deixou de lado a verdade.

Exemplos não faltam: Quando a imprensa norte-americana confirmou a existência de armas de destruição no Iraque e deixou de lado a verificação dos fatos. O mesmo aconteceu quando acusou Hafez al-Assad de ataques químicos na Síria sem ao menos ter alguma prova. E mais recentemente o atual presidente Donald Trump afirmou que os refugiados turcos invadiriam a Inglaterra se o Brexit não fosse aprovado e que o Barack Obama fundou o Estado Islâmico e não é americano.

Assim, a imprensa se torna protagonista no processo de criações de pós-verdades. Por meio da insistência e repetição, transformam mentiras ou meias verdades em fatos socialmente aceitos. Criou-se o “pós-jornalismo”, que não duvida, pergunta, busca interpretar os fatos e reflete, mas que lê o mundo de acordo com seus interesses.

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